Era como se estivesse caindo há anos. Voe, uma voz sussurrou para ele, mas como não podia voar, tudo que fazia era continuar caindo. Viu Meistre Luwin moldando um boneco de barro e atirando-o de cima das muralhas, o boneco se espatifou. Bran respondeu que ele nunca caía, mas estava caindo.
O chão estava muito longe, mas ele estava caindo muito depressa e mesmo em sonho não é possível cair para sempre. Sabia que iria acordar instantes antes de bater no chão. Mas a voz sussurou: E se não acordar? O chão estava agora mais perto, e Bran desejava chorar. Mas a voz disse: Não chore, voe! Bran respondeu que não podia voar, mas foi indagado pela voz se alguma vez já tinha tentado.
A voz era fraca, e Bran olhou para os lados para ver de onde vinha aquela voz. Era um corvo que estava descendo com ele. Bran pediu para o corvo ajudar ele, o pássaro respondeu que estava tentando, e pediu um pouco de milho para Bran. Bran tirou milhos do bolso, e o corvo começou a comer. Bran perguntou se ele era mesmo um corvo, e este respondeu:
- Você está mesmo caindo?
- É só um sonho. - disse Bran.
- Será? - respondeu o corvo.
- Eu acordo quando atingir o chão - respondeu Bran.
- Você morre quando atingir o chão - falou a ave.
Bran olhou para baixo, agora já conseguia distinguir as montanhas, os rios, e começou a chorar.
- Isso não serve para nada, disse o corvo. Já te disse, a resposta é voar, não chorar. Quão difícil pode ser? Eu estou voando.
- Você tem asas - fez notar Bran.
- Talvez você também tenha. - respondeu o corvo.
Bran começou a se olhar à procura de asas, mas o corvo respondeu que havia diferentes tipos de asas. Bran percebeu que estava muito magro, e se perguntou se foi sempre assim. Tentou se lembrar, mas viu um rosto que dizia: " As coisas que faço por amor". Bran gritou, e o corvo disse:
- Isso, não, guinchou para Bran. Esquece, não precisa disso agora, ponha-o de lado, faça-o desaparecer.
Bran agora estava caindo mais rápido, e questionou o corvo porque fazia aquilo com ele. O corvo respondeu que estava ensinando-o a voar, e que todos os vôos começavam com uma queda. Bran disse que tinha medo, o corvo gritou para ele olhar para baixo.
Bran olhou para baixo, e viu tudo claramente, viu todas as pessoas do reino, e esqueceu-se de ter medo por um momento. Ele viu Winterfell e suas muralhas, viu Meistre Luwin olhando de sua varanda os céus, viu seu irmão Robb, que estava mais forte e mais do que da última vez que o viu. Viu Hodor, o gigante simplório, e também viu o represeiro branco com seus olhos de sabedoria no coração do bosque sagrado. Viu sua mãe em um barco olhando para uma faca suja de sangue que estava em uma mesa. Junto com sua mãe estava Sor Rodrik. Levantava-se uma tempestade à frente do barco, mas por algum motivo eles não conseguiam enxergá-la.
Olhou para o sul e viu seu pai no Tridente suplicando ao rei Robert. Viu Sansa chorar até adormecer e viu Arya guardar seus segredos no fundo do coração. Ergueu os olhos e viu com clareza para lá do mar estreito, viu as Cidades Livres, o mar verde dothraki e, mais além, até Vaes Dothrak, no sopé de sua montanha, até as terras fabulosas do Mar de Jade, até Ashhai da Sombra, onde se agitam dragões ao nascer do sol.
Finalmente olhou para o norte e viu seu irmão, Jon Snow, dormindo numa cama fria, solitário. Olhou para lá da Muralha, olhou para o norte e para o norte. Olhou para o coração do inverno e gritou. O corvo disse-lhe:
- Agora você sabe, - sussurrou o corvo ao pousar no seu ombro. - Agora sabe por que deve viver.
- Por quê? - disse Bran, sem compreender, e caindo, caindo.
- Porque o inverno está para chegar.
- Porque o inverno está para chegar.
Bran olhou para o corvo, e viu que este tinha três olhos, e o terceiro era cheio de sabedoria. Olhou para baixo, de novo, e viu que não tinha nada além de neve e morte. Viu ossos de mil outros sonhadores empalados em pontas de gelo. Bran viu ele próprio dizer: " Pode um homem continuar a ser valente se tiver medo?", e seu pai respondeu: " Essa é a única maneira de ser valente".
O corvo deu um últimato a ele. Voa ou morre. A morte estava vindo de encontro a ele, e Bran abriu os braços e voou. Aquilo era melhor do que escalar. O corvo voou para o resto de Bran, e começou a bicar o meio da testa dele. Bran sentiu uma dor cegante e mandou o corvo parar.
Bran olhou de novo e viu que o corvo era na verdade uma mulher. Ele conhecia aquela mulher, era uma criada de Winterfell que agora estava gritando: "Ele acordou! Ele acordou!". Bran levou as mãos à testa, no meio dos olhos, mas não havia nada. Tentou se levantar da cama, mas nada aconteceu. Ele sentiu um movimento ao lado de sua cama, o lobo sentou na sua perna, mas ele não sentiu nada. Bran se perguntou se aquele era realmente o seu lobo, pois estava muito grande. Coçou o lobo, e ele estava quente.
Seu irmão entrou correndo no quarto, ofegante pela corrida. Bran falou para ele:
- O nome dele é Verão.
Everton Taveira
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